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A escola e a lógica do pódio na educação infantil

Desenvolvimento e Educação

A escola e a lógica do pódio. Quem é o melhor, o maior, o mais bonito, o mais inteligente, o mais rápido?

Pódio é, por natureza, um lugar solitário. São apenas três lugares, hierarquicamente estabelecidos por destaque, 1º, 2º e 3º; materialmente representados pelo ouro, prata e bronze, faixas ou coroas. Um dia, em algum lugar, começaram a chamar de sucesso esses primeiros lugares e metais e tudo mais que estivesse em seu entorno.

Quem é o melhor, o maior, o mais bonito, o mais inteligente, o mais rápido? Para isso, todos se esforçaram muito. Não bastava ser alguma coisa, tinha que ser o melhor. O desejo de vencer, em todas as dimensões da vida, movimentou a ciência, a técnica, a especialização, métodos e estratégias. Chego a pensar que as guerras, a despeito de sua diversidade de propósitos, também se inspiraram nos pódios.

A lógica do pódio na educação

Infelizmente, a lógica do pódio invadiu o mundo da educação. Não havendo vaga para todo mundo, a escassez gera a competição, aflora a rivalidade, embota a cooperação e anula a solidariedade. Corrompe-se aquilo que a educação tem de mais elevado que é a formação humana.

Como sociedade, estamos perdendo a oportunidade ímpar de formar uma geração que pense nos interesses coletivos e que atendam ao bem-comum. Ao contrário, estamos cada vez mais nos ocupando com a pauta do “faça do seu filho o maior competidor do mercado”.

Chegamos ao ponto de pais considerarem inútil o brincar na educação infantil

Escolas deveriam ter foro privilegiado e serem impedidas de operar nessa lógica. Esta é a primeira e única instância capaz de mudar o nosso registro de “salve-se quem puder”. A ameaça proveniente da lógica do pódio é que algumas práticas e disciplinas que mais favorecem a formação humana pouco ou nada valem. Tudo passa a ser maximizado e racionalizado. A pergunta reinante é: serve para quê? Vai cair no ENEM? Chegamos ao ponto de pais considerarem inútil o brincar na educação infantil, por tornar o ensino “fraco”.

Em grande parte do mundo, crianças e jovens vão à escola, seja debaixo de uma árvore ou em prédios suntuosos. Espera-se que a instituição escolar seja o locus onde as experiências e os conhecimentos mais diversos propiciem, naquele que por ela passe, uma ampliação do repertório social, científico, técnico, cultural e humano. Faz parte da educação chamada de básica a preparação do indivíduo para a vida em sociedade.

Sabemos que não nascemos humanos, nós nos tornamos, e esse processo implica uma ação intencionada dos adultos na elaboração de estratégias pedagógicas que levem o estudante a buscar dentro de si o que há de melhor. Ensina-se sensibilidade social, solidariedade, cooperação, fazer perguntas, questionar, criar, inventar, apreciar. Isso leva tempo, contudo, esses ensinamentos são referenciais que irão nos guiar por toda a vida. Este, sim, é o nosso maior tesouro.

É por tudo isso que a educação escolar é básica, estrutura fundante que não pode ser eliminada e nem aligeirada. Ao ver, ouvir, sentir e se impactar, as crianças e jovens vão se inspirando, fazendo escolhas, definindo sua personalidade e o seu caráter. Nesse sentido, a escola tem papel crucial, pois tem a seu favor aquilo que tanto agrada às nossas crianças e jovens, que é a convivência coletiva.

Não podemos nos enganar. O caminho que leva ao pódio cobrará seu alto preço, pois acessá-lo implica em concordar com os seus princípios. A competitividade é um deles. Não aquela competição prazerosa do jogar com o outro, mas aquela que faz necessário derrubar o outro. Nesse percurso não há lugar para os excluídos, os fracos, os deficientes ou aqueles que não têm o “porte atlético”.

A caminhada é individualizada desde a saída, durante o percurso e na chegada. Passa-se a olhar o colega como um concorrente e rival. Desfazem-se os vínculos de colaboração. Talvez seja essa uma das pistas para tentarmos entender a melancolia ativa que tem levado tantos jovens à depressão.

Sabemos já, como pessoas maduras e vividas que o mundo, os sonhos e a vida não se encaixam em um único trajeto. Defendo um caminho mais alargado, que contemple a vida em sua totalidade. Ao invés do sucesso de poucos, por que não a ideia de que é possível irmos juntos, chegarmos juntos e chegarmos bem. Não importa a sedução do pódio e a sua alegria fugaz, pois, assim que dele desço, certifico-me de que estou esvaziado de humanidade. Se almejamos uma sociedade solidária, colaborativa e humana, com certeza, temos muito o que conversar.

 

Fonte: Aleluia Heringer Lisboa – Doutora em Educação e Diretora do Colégio Santo Agostinho – Unidade Contagem 

 

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